Consciência Negra: Mulheres quilombolas têm no partilhar o caminho para a resistência

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Compartilhar saberes. Esta é maneira que Dona Dedé, Maria e Franciane encontraram de fortalecer sua presença no mundo. São três gerações de mulheres do quilombo do Cercadão, em Caucaia, que acreditam na vida em comunidade, na solidariedade e na educação. Tia Dedé, como é conhecida Maria Osélia (84), fala com orgulho do quilombo. “Nasci e criei meus doze filhos aqui”, conta enquanto passa pela padaria e cumprimenta uma filha e, do outro lado, dá a benção a um neto.

“As crianças que eu ensinava me chamavam de tia Dedé, e logo todo mundo passou a me chamar assim. Eu cuidava, ensinava, dava comida e fortalecia neles o sentido da vida em comunidade”, lembra. Tia Dedé costura para todo o quilombo. As mãos hábeis carregam marcas do tempo e dizem muito sobre sua identidade, sua história. “Aqui a gente é muito feliz. Com o pouco que temos fazemos muito, eu nunca saí daqui, nem vou, só quando eu morrer”, sentencia.

O sentimento de pertença e bem-estar na comunidade se estende para Franciane, nascida e criada no quilombo. “Ensinar as crianças no quilombo em que eu cresci é a realização de um sonho. O meu desejo é que eles entendam que podem conquistar o que quiserem e saibam que podem sempre levar consigo o quilombo, que vai além de um espaço físico. É um estar no mundo, uma escolha pela partilha. Nossas vidas se cruzam e nossos saberes são igualmente importantes aqui dentro”, conta a pedagoga Franciane Campos (29), que nasceu no quilombo e hoje ensina as crianças da escola da comunidade.

Quilombola, rezadeira e professora especializada em Educação Infantil, História, Geografia e Gestão Escolar, Maria dos Prazeres (54) carrega em si os saberes popular e acadêmico. “Viver em um quilombo me tornou uma pessoa naturalmente curiosa sobre o mundo a minha volta e me desperta para a necessidade de buscar constantemente o conhecimento. Não quero que a história dos meus ancestrais seja esquecida e encaro isso como uma missão: a de levar adiante a nossa cultura, nossos gostos, o que aprendemos com nossas avós”, explica.

Guardiões da Memória

O Quilombo “Cercadão dos Dicetas”, localizado em Caucaia, foi criado em 1710, há aproximadamente 300 anos. Oficialmente foi considerado terra quilombola em 2012. Na comunidade vivem 160 famílias. O quilombo conta com escola infantil, associação, campos de futebol, uma igreja católica, duas evangélicas e um terreiro de umbanda, além de uma casa de farinha que atualmente está desativada.

“A primeira coisa que precisamos entender é quem são os povos quilombolas e porque são comunidades tradicionais. Os quilombos representam a resistência negra e reivindicam a memória de seus ancestrais. Temos trabalhado para levar as políticas públicas para dentro dos quilombos do Estado, possibilitando acesso à educação, saúde e cidadania”, pontua a coordenadora especial de politicas públicas para promoção da igualdade racial da Secretaria da Proteção Social, Justiça, Cidadania, Mulheres e Direitos Humanos (SPS), Zelma Madeira.

A coordenadora destaca que no Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial, em que os povos quilombolas têm assento, é feita a articulação necessária para que eles cheguem à politica pública e aos direitos.

Consciência Negra

Foi do quilombo dos Palmares, uma comunidade livre formada por escravos fugitivos das fazendas, no na região da Serra da Barriga, em Alagoas, que surgiu Zumbi. Líder do quilombo, Zumbi, ao lado de sua companheira Dandara, tem uma história de enfrentamento e resistência. Com 40 anos, foi morto no dia 20 de novembro de 1695. A data, anos depois daria origem ao Dia da Consciência Negra. Zumbi é um dos personagens que ilustra a campanha Ceará sem Racismo.

De acordo com a Fundação Palmares, o Brasil possui 3.386 comunidades quilombolas, destas 2.374 são certificadas. A maior parte destas comunidades estão localizadas no Nordeste. No Ceará, existem 87 comunidades quilombolas, dentre estas 50 são certificadas.

Fonte: Governo do Estado.


19 de novembro de 2019


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